"Mães colocam filhas para pintar muro de escola pichado por elas".
http://www.folhabv.com.br/mobile/noticia.php?id=141259
Logo após ler a sentença, eu pensei, "aí tem causatividade! vou levar isso para o meu AVM!". Ora, "mães colocam" é o predicado de causa; nesse caso, "colocam" é um verbo que expressa ação de fazer algo com outro - colocar alguma coisa em algum lugar ou alguém para fazer algo -, um verbo causativo perfeito! E, "filhas para pintar muro de escola pichado por elas" é o predicado de efeito, pois temos "filhas", um substantivo com toque de sujeito; e temos "para pintar muro de escola pichado por elas" como o acontecido, o resultado. As causativas estão aí por toda a parte, só que eu, com certeza, não saberia reconhecê-las sem o nosso querido Dioney e suas repetitivas, porém esclarecedoras, explicações.
Okay... Temos uma frase causativa... Mas o que me deixou de cabelo em pé foi a ambiguidade que o "por elas" trouxe, no fim da sentença. Se você pensar por um segundo, "por elas" concorda com "mães" do mesmo jeito que com "filhas", e é nisso que o nosso português do Brasil peca! Nós não temos diferenciação entre pronome de sujeito e de objeto. Pensando melhor, qual seria a melhor alternativa para uma causativa como essa?! As opções não são tão grandes... É uma sentença complicadíssima de se explicar em nossa língua. Uma possível não-usual alternativa seria usar a estrutura Munduruku; o que ficaria mais ou menos assim:
"Mães pintam muro de escola pichado por intermédio de suas filhas".
Mas a coisa fica ainda mais complicada, porque não fica claro que as filhas foram as que pintaram o muro, e que estão sendo punidas por suas mães. O que complica é que é uma sentença muito complexa para ser expressa com uma estrutura causativa. Eu acredito que seria muito mais simples se fosse aplicado, simplesmente, uma oração subordinada substantiva objetiva direta mesclada com uma substantiva objetiva indireta:
"Alunas picham muro de escola e são punidas por suas mães a o repintarem".
Mas como o foco está nas "mães", a coisa seria um tanto diferente:
"Mães punem suas filhas, que picharam o muro da escola, a o repintarem".
Nesse caso, uma oração subordinada adjetiva explicativa. Mas jornais e qualquer meio de comunicação em massa dificilmente destacam termos entre vírgulas, o que facilita a leitura dos menos escolarizados, e todo o tipo de parafernália desse tipo...
Enfim, esta foi só uma reflexão básica pela minha pequena intriga com essa ambiguidade.
Reflexão interessante, mas o nosso Português do Brasil não peca. Apenas temos outros usos. O contexto, como um todo, consegue desfazer a ambiguidade (gostaria de ver o texto todo). Se não conseguir, aí sim é hora de pensar/usar outras possibilidades da língua. E ainda há contextos (não este, provavelmente) que a ambiguidade é proposital. Enfim, ambiguidade é um tema que pede muitas discussões/reflexões :)
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