quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A Causatividade No Jornal

Uma notícia que está "bombando" no facebook é a seguinte:

"Mães colocam filhas para pintar muro de escola pichado por elas".

http://www.folhabv.com.br/mobile/noticia.php?id=141259

Logo após ler a sentença, eu pensei, "aí tem causatividade! vou levar isso para o meu AVM!". Ora, "mães colocam" é o predicado de causa; nesse caso, "colocam" é um verbo que expressa ação de fazer algo com outro - colocar alguma coisa em algum lugar ou alguém para fazer algo -, um verbo causativo perfeito! E, "filhas para pintar muro de escola pichado por elas" é o predicado de efeito, pois temos "filhas", um substantivo com toque de sujeito; e temos "para pintar muro de escola pichado por elas" como o acontecido, o resultado. As causativas estão aí por toda a parte, só que eu, com certeza, não saberia reconhecê-las sem o nosso querido Dioney e suas repetitivas, porém esclarecedoras, explicações.

Okay... Temos uma frase causativa... Mas o que me deixou de cabelo em pé foi a ambiguidade que o "por elas" trouxe, no fim da sentença. Se você pensar por um segundo, "por elas" concorda com "mães" do mesmo jeito que com "filhas", e é nisso que o nosso português do Brasil peca! Nós não temos diferenciação entre pronome de sujeito e de objeto. Pensando melhor, qual seria a melhor alternativa para uma causativa como essa?! As opções não são tão grandes... É uma sentença complicadíssima de se explicar em nossa língua. Uma possível não-usual alternativa seria usar a estrutura Munduruku; o que ficaria mais ou menos assim:

"Mães pintam muro de escola pichado por intermédio de suas filhas".

Mas a coisa fica ainda mais complicada, porque não fica claro que as filhas foram as que pintaram o muro, e que estão sendo punidas por suas mães. O que complica é que é uma sentença muito complexa para ser expressa com uma estrutura causativa. Eu acredito que seria muito mais simples se fosse aplicado, simplesmente, uma oração subordinada substantiva objetiva direta mesclada com uma substantiva objetiva indireta:

"Alunas picham muro de escola e são punidas por suas mães a o repintarem".

Mas como o foco está nas "mães", a coisa seria um tanto diferente:

"Mães punem suas filhas, que picharam o muro da escola, a o repintarem".

Nesse caso, uma oração subordinada adjetiva explicativa. Mas jornais e qualquer meio de comunicação em massa dificilmente destacam termos entre vírgulas, o que facilita a leitura dos menos escolarizados, e todo o tipo de parafernália desse tipo... 

Enfim, esta foi só uma reflexão básica pela minha pequena intriga com essa ambiguidade. 

Meu Pai

Esses dias eu tava reparando o discurso do meu pai... Ele não foi completamente alfabetizado, e sofre muito com o léxico das palavras, e com causatividade, em subsequência! Ele é aquele tipo de pessoa que substitui "coisa" e "negócio" por tudo, inclusive as pessoas, que ele sempre chama de "menino" e "menina"... Ele é sim é uma pessoa muito inteligente, mas não consegue desenvolver pensamentos para fora da cabeça, achando que eu posso ler o que ele pensa.

Sobre a causatividade, muitas vezes ele não consegue desenvolver uma ideia lexical, por exemplo; daí ele só diz que alguém caiu... e não pensa na força que agiu sobre isso. Não pensa que para alguém cair, outro ser ou coisa precisa o derrubar. A informação sempre parece se quebrar fora da cabeça dele, e ele não consegue se expressar bem, e acaba ficando com raiva de quem não entende, porque para ele é tudo tão claro, que ele não entende o porquê de o outro não compreender.

É mais engraçado ainda quando ele fala esses códigos lexicais, "coisa", "negócio", "menino(a)", e quer que a gente entenda, mesmo que o contexto da conversa esteja pendendo a outra coisa que não tem nada a ver com aquilo. Do nada, ele fala: "o menino foi preso mesmo", e aí eu tenho que vasculhar minha memória e tentar lembrar de todos os "meninos" que possam ter sido inserido em alguma conversa algum dia. É um trabalho de decodificação cansativo, às vezes. Ainda mais quando ele pede para eu pegar o "coisa" dentro do armário, e se esquece da palavra correspondente; e se eu pergunto que "coisa", ele fica um minuto tentando pensar no morfema lexical correspondente ao seu pensamento.

Eu costumo pensar que a memória do meu pai é boa para lembrar de coisas, e não de palavras ou de sentenças autoexplicativas. Ele é muito bom em artesanatos, tem uma habilidade ímpar. Seguindo os preceitos de Platão em A República, poder-se-ia dizer que meu pai foi feito para ser um artesão, uma vez que ele seja bom nisso muito mais do que seria em matemática e português, por exemplo. Todos os seus esforços estão ligados a apenas uma arte. Ele é um artista pleno, é isso que quero dizer.